Até quando suportar a hipocrisia do esporte

No último domingo, dia 12, em uma partida do Campeonato Brasileiro, os atletas das duas equipes entraram em campo com uma camisa que, segundo os apresentadores da TV, tratava-se de uma Campanha da FIFA contra o Trabalho Infantil. Pura hipocrisia, afinal se há uma atividade na qual a exploração do trabalho infanto juvenil corre solta é o Futebol e alguns outros esportes olímpicos.

A FIFA, Federações e Confederações fazem o jogo do ‘faz de conta’. Hoje são realizadas várias transferências de atletas menores de 16 anos pelo mundo a fora – com contratos elaborados/analisados por agentes da FIFA – sob o olhar ‘comprante’ de uma entidade que visa o lucro para seus dirigentes, acarretando o detrimento ao próprio esporte.

Estes jovens são verdadeiros ‘escravos’ desses chamados ‘empresários’ do Futebol, credenciados pelas próprias entidades. Jovens que são levados para diversos países e abandonados a própria sorte e que, ao final, têm de ficar implorando favores para tentarem retornar ao País de origem.

Em matéria recente, o Jornal da Tarde (JT) apresentou uma lei existente (e vigente) no Estado de São Paulo na qual atribui aos Clubes Esportivos manter os jogadores matriculados na escola, além de zelar pelo desempenho escolar destes atletas. Há, inclusive, uma punição aos clubes, cabendo à Federação Paulista de Futebol fiscalizar e punir os infratores.

Mas como uma entidade pode fiscalizar algo quando ela é a primeira a desrespeitar a legislação ao marcar partidas de campeonatos das categorias menores em dias de semana, obrigando os atletas em idade escolar a faltar nas aulas e os clubes a viajarem quilômetros de distância para atender a tabela que a própria federação organiza.

Os clubes tocados por integrantes ligados a empresários e agentes da FIFA se utilizam destes jovens como mercadoria, pois a eles não interessa o ser humano. Eles não pensam em formar o homem, estão preocupados em formar o atleta.

Basta verificar as milhares de Casa dos Atletas mantidas por clubes – em algumas cidades mantidas até por Prefeituras – que mantêm estes jovens com sonhos de atletas em verdadeiras senzalas onde a comida é de péssima qualidade e o ambiente é sujo.

Nestes alojamentos, os atletas só têm café com leite e pão com manteiga pela manhã (isso quando tem) e depois são levados para fazer atividades físicas indicadas para adultos e instruídos por profissionais sem responsabilidade. Na volta para o almoço, o cardápio é arroz, feijão e salsicha. Carne, frango, peixe e outros alimentos de grande importância na alimentação de um atleta são coisas de luxo. Durante a noite, esquenta o que sobrou do almoço e, quando não tem, repassa o pó de café que foi usado para o café da manhã.

Muitas dessas Casas de Atletas também são mantidas por Secretarias de Esportes de vários municípios do Estado de São Paulo, onde atletas de diversas modalidades esportivas ficam alojadas por terem sido trazidos de outros municípios e até de outros estados para competir pela cidade nos Jogos Regionais e Jogos Abertos.

Estes mesmos atletas também não têm alimentação adequada, nem acompanhamento escolar e ficam a mercê da vontade de um Secretário de Esportes, de técnicos incompetentes que não têm coragem de buscar na sua própria cidade atletas para suas equipes, pois o objetivo é de conquistar o titulo a qualquer custo para justificar a roubalheira que ocorre nestas secretarias de esportes.

As Câmaras Municipais, a quem caberia a fiscalização da situação e das verbas gastas, faz vista grossa, pois os senhores vereadores não exercem o papel de fiscalizadores, mas sim de componentes de um grupo político cujo a crítica é proibida devido à famosa troca de favores.

Os conselhos tutelares se omitem em vista de dependerem das Prefeituras e dos políticos para o pleno exercício de suas atividades que deixam a desejar.

A culpa não é somente das Entidades, é principalmente dos pais e responsáveis que hoje pensam apenas que o futuro de seus filhos está em serem atletas, cantores, modelos ou artistas de televisão. Uma fantasia que, na grande maioria, leva os seus a um futuro sombrio e triste.

A falta de preocupação e de respeito ao ser humano, a visão apenas de formar atletas redunda no que estamos assistindo com atletas envolvidos em crimes, em discussões, como o atleta Neymar, do Santos Futebol Clube, que ofendeu o técnico e os companheiros da equipe com palavras de baixo calão. Este mesmo atleta já havia apresentado vários problemas disciplinares nas partidas.

Mas os dirigentes fazem vista grossa, achando justificativa, dizendo que o atleta ainda é jovem e já é um talento, uma jóia e que tudo isto lhe permite ser um verdadeiro ‘Monstro’ da falta de educação.

O treinador da equipe adversária na última partida foi feliz ao dizer que se ninguém tomar uma atitude com este atleta será criado um monstro, que a falta de educação do referido atleta é algo que agride a qualquer ser humano.

Esta é a questão. Este atleta é um dos que abandonou a escola e onde estão a Federação, a Diretoria do Clube e o Conselho Tutelar de Santos para fazer valer a Lei Estadual nº 13.748 aos pais do atleta que já não deram educação desde o berço e que negam e desrespeitam a Constituição Federal que diz:

“227 CF – sendo dever da família, da sociedade e do Estado assegurar, como prioridade absoluta, a educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade, e à convivência familiar e comunitária, além de colocá – las a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”.

Ou será que vamos esquecer tudo porque alguém fala que o menino é ‘craque’, é uma ‘jóia’. Na verdade, ele é um jovem desgovernado e explorado pelo clube, pelos pais e empresário, que é um verdadeiro gigolô de atletas.

Até quando vamos continuar a usar o esporte para engordar os bolsos dos falsos dirigentes de Clubes, Ligas, Federações, Confederações, da FIFA, dos falsos empresários e agentes da FIFA.

O Ministério do Esporte deste País faz vista grossa, pois hoje é um simples órgão a serviço da CBF e dos Cartolas que vivem as custas do sofrimento de vários atletas. Milhões de jovens que um dia foram iludidos por estes dirigentes, jovens com o sonho de se tornarem atletas independentes financeiramente, mas que hoje vivem a realidade de um sonho triste e penoso. Não são atletas e não têm preparo para tocar uma vida digna como qualquer trabalhador, pois não têm qualificação para o exercício de uma profissão, pois foram tirados da escola para treinar, viajar e concentrar. O resto é hipocrisia e mentira.

por Lourival Figueiredo Melo

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